21 de agosto de 2008

As Benevolentes


Quase posso dizer: finalmente. Depois de quase dois meses me dedicar, exclusivamente, à sua leitura, terminei de ler um dos melhores livros que já li, " As Benevolentes".

Ali se prova que a linha que separa o Bem e o Mal é demasiada ténue, bastando para isso estar em causa a nossa própria sobrevivência. É uma verdadeira reflexão sobre a condição humana, em forma de calhamaço, já que são 900 páginas, sendo um livro que exige muita atenção, e paciência para alguns termos militares, por parte do leitor, mas no qual saímos completamente rendidos e vergados perante a grandiosidade deste " verdadeiro conto moral", como lhe chama, a certa altura, o autor.

Para ler, sem preconceitos, com tempo e com humildade, porque o autor não deixa de ter razão quando nos aponta o dedo, chegando a ser incómodo ler algumas verdades.


" Uma vez mais, sejamos claros: não procuro dizer que não sou culpado deste ou daquele facto. Sou culpado, o leitor não, muito bem. Mas o leitor deveria apesar de tudo ser capaz de dizer para consigo que teria feito também aquilo que eu fiz. Talvez com menos zelo, mas talvez também com menos desespero, mas seja como for de uma maneira ou de outra. Penso que me é permitido concluir como um facto estabelecido pela história moderna que toda a gente, ou quase, num conjunto de circunstâncias dadas, faz o que se lhes diz que faça; e, peço desculpa, há poucas probabilidades de ser o leitor a excepção, tal como eu não a fui. Se nasceram num país ou numa época em que não só ninguém aparece para matar as vossas mulheres, os vossos filhos, mas em que ninguém aparece também para vos dizer que matem as mulheres e os filhos dos outros, dêem graças a Deus e vão em paz. Mas mantenham sempre presente no espírito esta ideia: talvez tenham tido mais sorte do que eu, mas nem por isso são melhores do que eu. Porque no momento em que tenham a arrogância de pensar sê-lo, aí começa o perigo. "

" ...O bem e o mal são categorias que podem servir para qualificar o efeito das acções de um homem sobre outro;mas são no meu entender fundamentalmente inadequadas, senão inutilizáveis, para ajuizarmos do que se passa no coração desse homem. Doll matava ou fazia com que se matassem pessoas, o que é portanto o Mal; mas em si próprio, era um homem bom para os que lhe eram próximos, indiferente em relação aos outros, e além disso respeitador das leis. Que mais se pede ao homem comum das nossas cidades, civilizadas e democráticas ? ... Que homem só, movido apenas pela sua própria vontade, poderá decidir e dizer: Isto é bom, isto é mal ? "

Interessante seria mesmo fazer uma leitura conjunta deste livro e discuti-lo como naqueles grupos de leitores.
Por fim, aconselho ler esta interessante critica do grande escritor Mário Vargas Llosa.

1 comentário:

Carriço disse...

É um livro histórico na medida em que relata uma época importante da história mundial, é um romance impossível de viver - e pode dizer-se traumatizante - entre dois irmãos e é muitas vezes um caminho à introspecção, espécie de auto-avaliação, porque percebemos que talvez nos desconheçamos. Livro fortíssimo. Deixou marcas.

Abraço