27 de dezembro de 2010

estou cansado, é claro


Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...

E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto me dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.



Fernando Pessoa -poesias de Álvaro de Campos


2 comentários:

susemad disse...

O ano quase a chegar ao fim e publicas o meu poeta preferido! Brilhante! Só pode querer dizer que o próximo ano será um ano preenchido com coisas boas. :)

Menphis disse...

também é o meu favorito. e este poema vem mesmo ao encontro daquilo que sinto. beijinhos