14 de fevereiro de 2010

À falta de uma designação mais apropriada, chamou a essa luz « a terceira condição», resultante da convergência da luz pura das montanhas e da que emana dele mesmo, equidistante da vigília absoluta e do torpor mais profundo e, contudo, distinta de ambas.

Não havia no mundo, pensou, perda mais trágica do que a da terceira condição. Privação causada pelas notícias da rádio, pelos nossos projectos, pelas ambições ocas, pela corrida desenfreada atrás de futilidades e bagatelas. Todos os sofrimentos, disse Fima para consigo, todas as frivolidades e o ridículo não são senão o fruto de se estar privado da terceira condição. A menos que a causa resida na vaga intuição que nos lembra que existe algures, dentro ou fora de nós, quase ao nosso alcance, qualquer coisa de essencial para a qual tendem sempre os nossos passos sem nunca a atingirmos: somos chamados e esquecemo-nos de responder ao apelo. Falam-nos e não ouvimos. Abrem-nos a porta, tardamos, por preferirmos satisfazer este ou aquele apetite, e ela entretanto fechou-se. "O mar do silêncio libertou ou seus mistérios", mas estivemos distraídos com futilidades. Preferirmos correr a agradar a alguém que deixa tudo pelo desejo de agradar a outrem que…etc., etc. Até regressarmos ao pó.Passamos a vida a rejeitar o que é, a favor daquilo que não é, não foi, não será, nem poderá ser. Tinha carradas de razão Gad Eitan quando afirmava ironicamente que o desperdício andava por cá à solta.

In " A Terceira Condição " de Amos Oz

3 comentários:

Carriço disse...

Nunca li nada de Amos Oz, mas esta pequena amostra deixou-me curioso.

Abraço

carla disse...

intenso!!!!

desnorteada disse...

Fabuloso! e como é autêntico... boa escolha! beijinhos